quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

UMA TARDE COM O MANNY

Uma tarde, em South River, NJ, eu estava sentado na esplanada do restaurante do Manny Silva e, a páginas tantas, perguntei: "Manny, já alguma vez ganhaste a lotaria?" Ele respondeu: "Sim, quando os meus filhos e a minha neta nasceram". Por momentos, calei-me, embrenhado na sabedoria daquele homem. Manny Silva fascinava-me pela sua natureza e argúcia. Sempre que podia, eu não perdia a oportunidade de o escutar.
Meses mais tarde, já em Lisboa, sonhei com o Manny. Recordo muito pouco os meus sonhos. Nem sequer tenho tempo para os recordar. Mas esse sonho eu recordei. E sonhara que estava chegando a South River, ao estacionamento que o Manny mandara alcatroar dias antes. Ele estava cá fora, na esplanada, atendendo uma chamada. Mantinha-se de costas para mim, acenei-lhe, mas ele seguiu caminhando na direcção da rua, entre um pequeno corredor que separa as paredes do restaurante de um "autobank". E eu despertei sem poder falar com ele. A nostalgia surpreendeu-me.
Nesse dia, peguei no telefone e liguei. Do outro lado da linha, a sua voz foi reconfortante. A voz de um homem bom.
Uma semana depois, eu estava falando com o Orlando (Orlandini, um ser universal, de barba rapada na careca de todos os dias, incrivelmente alegre e, ainda por cima, meu primo-irmão), dizia estava falando com o Orlando sobre o Manny. E o telefone tocou. El Emigrante, um homem enorme e com uma generosidade tão grande como ele, gaguejou e disse com a voz mais triste que, nos últimos anos eu acabara de escutar. "O Manny morreu". Nem deu tempo para respirar.
Nessa tarde, chorei como uma criança. O Manny tem-me feito muita falta. Porque o Manny era um homem sábio.

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